As políticas de Chaplin
As políticas de Chaplin
Nosso querido Chaplin fez aniversário há alguns dias. A mera menção ao nosso encantador Carlitos faria pensar que a seção de política é imprópria para tal tipo de comemoração, muito embora atrasada. Mas ele está a falar de cinema? Indagariam alguns. Respondo que não vou falar de cinema, pelo menos não como objeto, mas talvez de um certo efeito que as imagens produzem sobre a sociabilidade. Então, falará do Chaplin político? Retrucariam outros. Respondo que não. Muito embora seja quase impossível dissociar uma coisa da outra: o criador, do político. Não vou falar nem de cinema, nem de história, como objetos. Escreverei algumas linhas sobre política. E para tanto invocarei alguns efeitos sobre a sociabilidade, os quais podem ser encontrados também na obra de Chaplin.
A associação entre política e partidos políticos é verdadeira. Como também é verdadeira a associação entre política e o político profissional. Ou a associação entre política e instituições políticas. Todas essas composições são verdadeiras. Mas podemos dizer que os partidos políticos, os políticos profissionais e as instituições políticas esgotam o fenômeno da política? Pois se esgotam, de modo a conseguirmos encontrar sobreposição, então a política é isso mesmo: partidos, políticos profissionais e instituições. Para alguns até aqui já basta. E não há necessidade de pensar nada mais além desse ponto. Para esses que interrompem nesse ponto; a política é exercida no conhecimento das funções administrativas, no voto e no acolhimento, quando necessário, desempenhado pelas instituições. Em suma: a política não possui qualquer função criativa. Para os que desejam passar desse ponto: a política muito dificilmente poderia ser reduzida àquilo que chamamos instituições, partidos ou políticos profissionais, pois percebemos que todos esses pontos são artifícios para a realização da sociabilidade.
A política se pode ser reduzida à atividade partidária (a qual é absolutamente necessária – não me tomem por inimigo da atividade partidária, mas como inimigo de que essa resuma a atividade política) é alguma coisa muito ridícula. Com efeito, pequenina e transparente, por demais, para despertar algum interesse não burocrático. Mas julgamos que a política é maior do que esses termos. Basicamente porque a política é a atividade, na sociabilidade, pela qual crenças criam mundos possíveis. Nada disso se confunde com voluntarismo. Mas a política é o nome que damos a essa capacidade, da natureza humana, de produzir sociabilidades.
Inadvertidamente vemos um policial dar um tapa, dado com precisão, em um vagabundo maltrapilho, um outro policial, bastante atento, logo chega ao evento da agressão, o vagabundo, a despeito de nossas expectativas, pede que o policial prenda o agressor, também policial. O pedido nos gera certo estranhamento, como ele pode confiar em um homem de farda, tendo sido agredido, também, por um homem de farda? Não percebe que a autoridade está corrompida? Mas se pararmos para pensar sobre o assunto, a expectativa mais intuitiva é que apenas um dos homens da lei se corrompa, enquanto os outros continuam a evitar que os homens sejam agredidos sem por quê. O homem agredido, o vagabundo, não é bem um vagabundo, é um barbeiro judeu, cuja loja, uma vez pichada, com dizeres poucos elogiosos aos judeus, limpa a fachada de sua loja, de modo que espera que os oficiais impeçam tais atos de vandalismo: mas o oficial impede a limpeza e aplica o bofetão. Ficamos absortos com a confiança do barbeiro no oficial, aquele que não o agrediu, porque vivemos já em um mundo onde desconfiar da autoridade é um modo de sobrevivência. O mundo de Chaplin também já não confia na autoridade, mas faz que confia, para nos tornar perplexos: Chaplin faz política: e faz da política uma grande coisa.
A historiografia muito tem a nos dizer sobre as boas loucuras (amabilis insania) de Chaplin contra o autoritarismo em política, o fato de que financiou, quase que sozinho, o filme O grande ditador (de onde retiramos a cena), ou que investiu generosamente em sociedade judaicas que salvavam pessoas da Alemanha, ou que se recusava a se apresentar como um não-judeu, ou quando reage, bastante tempo depois, contra a perseguição de comunistas nos EUA e muitos outros fatos. A historiografia pode citar muitas coisas cujos efeitos políticos são sempre menores, pois circunscritos. Mas a política está no poder de reação ao autoritarismo que nos inspira toda vez que a audiência de nazistas, na cena final de O grande ditador, não percebe a mancha branca no cabelo do barbeiro judeu (única marca que o diferencia do ditador da Tomânia, Adenoid Hynkel, interpretado também por Chaplin) e escuta que ditadores sempre ficam livres, enquanto escravizam o mundo, que ao tomarem argumentos como amor pela terra, e terror de que o estrangeiro traga a mudança, manipulam e perseguem a todos.
Na capacidade de produzir efeito de sociabilidade, no horror aos modos de autoritarismo, Chaplin produz efeitos políticos sobre mundo, inclusive maiores do que os registros históricos de suas peripécias, porque rapidamente nos identificamos, absolutamente encantados como novidades esdrúxulas, como se encanta o oficial que leva a notícia de que foi criado gás venenoso, uma maravilha, que matará todo mundo. Pode ser que o efeito de dominação, de algumas novidades, e de algumas opiniões, seja bastante distinto hoje, mas o enunciado político de Chaplin está contido no encantamento, e no horror, que sentimos, ao vermos, o balé, encantador e macabro, com o mundo. A política pode ser uma grande coisa. Quando nos faz ver para além das burocracias. E ao vermos nossas crueldades, muitas, possamos desviar de nossas indiferenças, tantas.
Cesar Kiraly (http://cesarkiraly.wordpress.com)
Oi Cesar, parabéns pelo blog. do seu irmão, Jean